Flávio Sátiro

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Poesias

  • » Geografia do Corpo
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                    Geografia do corpo

     

     

      

    Seu corpo tinha culminâncias imprevistas.

    Dois montes de areia movediça
    mas que sustinham no cume
    minúsculas ocorrências rochosas.

    Ao pé dos montes situava-se a depressão,
    com pequeno lago ao meio
    de formação plistocênica.

    Além, entre paredes em erosão,
    jorrava a fonte, ora límpida ora turva,
    a correr, em seguida, por entre sombria floresta.

    Do outro lado da floresta
    alteava-se íngreme desfiladeiro
    e, após, estendia-se a costa.

    Da costa, por leste ou por oeste,
    era fácil chegar de novo
    aos montes de areia movediça
    mas que sustinham no cume
    minúsculas ocorrências rochosas.

    Seu corpo tinha culminâncias imprevistas.


     

  • » Ofício da escrita
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                      Ofício da escrita

     

     

     

     

    Sento-me à máquina
    e tento vencer,
    numa hora imprópria
    para menores, o desafio
    da folha em branco.

    Se as letras
    não saltam,
    não adianta
    fazê-las pular
    da esfera.

    Penso que o defeito
    é da máquina
    e não da mente
    que emperra.

    Forço novamente
    a escrita
    e as palavras se espalham
    cheias de bolor.

    Armo-me com
    uma chave de fenda
    e desparafuso
    as teclas
    e a barra
    com que preencherei
    os espaços da memória.

    O carro já não anda,
    a não ser quando
    eu engato
    a marcha-retrocesso
    de volta à vida.

    A esta altura,
    a máquina não é mais
    que um montão
    de letras delirantes
    em ordem (an)alfabética.

    Como recompor
    o que a vida mecânica
    teima em manter
    sob o jugo do espírito?

    Jogo para o alto
    os tipos enferrujados
    e eles caem de papo pro ar.

    No caos maquinário
    e digital,
    restam, apenas,
    o til, o circunflexo,
    o grave e o agudo acento
    e mais a crase limpa,
    de uso racional,
    entre parênteses
    que se derramam tristes,
    prendendo o que resta
    de mim na folha branca,
    desafiadoramente branca.


     

  • » Rei do Mar
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              Rei do mar

     

     

     

     

    Mar.
    Mar de areia.
    Areia do mar.
    Sereia do mar.
    Dois seres
    na areia do mar.
    (ou no mar de areia?)
    Sou eu a amar.
    a sereia do mar.
    Serei rei do mar.


     

  • » Paisagem de Guima
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                  Paisagem de Guima

     

     

     

     

    O pássaro,
    em vôo sereno,
    conquista, do alto,
    o quanto existe
    de luz e de esperança
    nesse verd'água sublime.


     

  • » Ponto de Cem Réis (*)
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                          O Ponto Cem Réis

     

     

     

     

    O Ponto Cem Réis
    é a cara do funcionário público aposentado.
    Veste a roupa do funcionário,
    calça as sandálias do funcionário,
    adormece com o funcionário,
    ouve o funcionário,
    fala pelo funcionário.

    Será que o governo vai dar aumento?
    Aumento do preço da carne
    aumento do preço do leite,
    aumento do preço do pão,
            do preço do arroz,
            do preço da farinha.
            Do preço do feijão,
     da água,
     da luz,
     do telefone.
     E o salário minguando...

     O funcionário aposentado é a cara do Ponto de Cem Réis.
     Veja aquele moreno magro, comprido e desmantelado,
     como o Edifício Régis.
     O gordo que está na esquina
     parece o prédio do IPASE (hoje INPS).
     E o velho que ali está?
     - O Café Alvear.
     E a velhota rechonchuda?
     - O viaduto.

     Mas há naquela azáfama
     um momento grave, em que todos se mostram solenes
     e os espíritos se conturbam.
     É quando ele surge, capanga a tiracolo,
     apressado e rapace - o agiota.

     O Ponto Cem Réis
     é o abrigo anti-nuclear dos funcionários.
     Nada o destruirá.
     O Ponto Cem Réis viverá eternamente.

    (*) Conhecido logradouro situado em João Pessoa - PB.


     

  • » O Aprendiz de Sapateiro
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                       O aprendiz de sapateiro

     

     

     

    Bate o prego no salto,
    o prego salta
    o martelo na sola,
    o martelo ao solo,
    a faca afiada a chiar na sola,
    a forma, a sovela, a linha escassa.

    Não passe o sapateiro
    além do chinelo.

    Sola, meia-sola, salto,
    brocha, alicate, prego, brocha,
    a palmilha pisando firme
    no compasso do martelo.

    Sola, meia-sola, sapato, salto,
    salto para a morte.


     

  • » Maternidade
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                     Maternidade

     

     

     

     

                                A Eliane

     

     

     

     

    Vagidos de silêncio
    enchem teu ventre,
    enquanto esperas, ansiosa,
    o instante de lágrimas
    e de nervosos risos

    Mas, transposto o momento de incertezas,
    descansarás, terna e bela, ao meu lado
    na contemplação de um novo diaque nasce


     

  • » A Paz Não Está Tão Longe
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                   A paz não está tão longe

     

     

     

     

    Inúteis as conferências de paz,
    os acordos, os ajustes
    e tudo mais.

    Como desarmar as potências
    sem, antes, desarmar os espíritos?

    Inúteis as conversações bilaterais,
    nas mesas redondas (ou quadráticas?)
    e tudo mais.

    Como evitar a explosão atômica
    sem, antes, conter a explosão das consciências?

    Não procure o homem a paz
    em conciliábulos multipartites.

    Para encontrá-la
    não é preciso ir a Versailles,
    Genebra, Washington, Moscou,
    Cabo Frio ou Tambaú.

    No dia em que cada um de nós
    encontrar a sua paz,
    aí, sim, a columbina ave
    abrirá suas asas sobre a humanidade.


     

  • » Ode aos noventanos
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                        Ode aos noventanos        

     

     

                  

     

                                    Ao meu pai,
                                    nos seus noventa anos.

     

     

     

     

    O tempo é rio
    por onde flui o existir.

    A energia
    que podia se extinguir
    renasce,
    tocada pelas asas
    das borboletas que,
    na manhã clara,
    se libertam
    do capulho alvinitente
    do algodoal.

    No mimetismo geográfico,
    a compreensão dos mistérios
    que a alma revolve
    no seu dia-a-dia.

    Viver é o desafio.
    A casa é o desafio.
    O pão é o desafio.
    Andar é o desafio.
    Ver é o desafio.
    Ouvir é o desafio.

    Vida de vaidade despojada.
    Verdade em aço forjada.


     

  • » Toilette
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                       Toilette

     

     

     

     

    1. Quem garante
        que ao escovar os dentes
        eu não esteja
        escovando a alma?
        Não sinto
        o sabor de menta
        ou de clorofila.
        Muito menos
        o hexaclorofeno.

        Na boca,
        apenas,
        o gosto dos sonhos
        da noite insone.


    2.  Uma mão
         lava a outra
         e as duas
         (em concha)
         lavam o desgosto.
     

    3.  O pincel,
         o creme,
         a espuma a se espalhar
         na face descoberta.
         O gesto ritual
         de retirar
         da têmporas
         a espuma.
     
          A lâmina afiada
          a deslizar
          em meu disfarce oculto.


    4.   O pente põe
          bem comportados
          os fantasmas
          negros e brancos
          do pesadelo de ontem.

          Até que a noite
          volte a confundi-los.


     

  • » Meu verso
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            Meu verso

     

     

     

     

    Meu verso é gago

    querendo ser translúcido.

     

    Dele me afasto

    para vê-lo de longe.

     

    Agora é lúdico,

    revestido de sargaços.


     

  • » Poema marinho
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              Poema marinho

     

     

     

     

    Que faz o peixinho

    na imensidão do mar?

    - Nada.

     

     

    E o militar da Armada?

    - Nada.

     


     

  • » Orações
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             Orações

     

     

     

     

    As orações que minha mãe me ensinou

    são bênçãos que me acompanham,

    relâmpagos que iluminam,

    trovões que despertam,

    chuvas que fecundam,

    adubo que fertiliza,

    sol que aquece,

    o dia inteiro,

    a vida inteira...


     

  • » Habeas-corpus
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                      Habeas-corpus

     

     

     

    O réu pediu, em seu favor,

    um habeas-corpus.

    Solto, mas não satisfeito,

    entrou em um bar

    e pediu um habeas-copos.

    Depois, foi ao lupanar

    e suplicou um habeas-cópulas.

     


     

  • » Alvará de soltura
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                    Alvará de soltura

     

     

     

     

     

    Quem disse

    que eu quero uma carta de alforria?

    Prefiro uma carta de euforia.


     

  • » Jornal da TV
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                          Jornal da TV

     

     

     

     

    O jornal da TV

    Me exibe o mundo:

     

     

    Violência, inundações, terremotos.

    Corrupção, assaltos, mortes.

     

     

    A melhor notícia

    vem no fim:

     

     

    - Boa Noite.

     


     

  • » O passarinho e a flauta
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                           O passarinho e a flauta

     

     

     

     

    No meu jardim

    jaz uma flauta.

     

     

    No meu jardim,

    um passarinho.

     

     

    No meu jardim,

    o passarinho soa

    e a flauta voa.

     

     


     

  • » Receita para amar
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                            Receita para amar

     

     

     

     

    Deixa o coração te dominar,

    não ligues para a razão.

    Se necessário,

    bota um pouco de paixão,

    não muito, pois embriaga.

    Usa, também, de ternura,

    carinho, afeto, dedicação.

    Compreensão à vontade,

    não faz mal.

    Mistura tudo isso

    em fogo brando

    e o beijo virá, docemente.


     

  • » A lição dos filhos
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                                A lição dos filhos

     

     

     

     

    Os filhos ensinam uma coisa.

    Podem até ensinar outras.

    Podem até mesmo pensar

    que ensinam tantas mais.

    Porém, de todas as coisas que

    os filhos possam ensinar,

    uma só basta:

    Os filhos ensinam que o tempo passa.


     

  • » Côncavo e convexo
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                               Côncavo e convexo

     

     

     

     

     

     

    Naquele sublime instante

    nossas palavras não têm nexo,

    delirantemente enredadas

    em nosso forte amplexo.

    Ela é o côncavo,

    eu sou o convexo.

    Isto é o que importa

    na hora do sexo.


     

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