Flávio Sátiro

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Obras Publicadas

Prefácios e Apresentações

 

 

 

 

Apresentação do livro Camille, Um desafio feliz, de Marília Leite Gonzalez Rocha, na noite de 18 de agosto de 2008, no Auditório Juarez da Gama Batista, da Fundação Casa de José Américo.

 

   

QUERER É PODER
 
  
  
 
 
 
Agradeço a Marília Leite Gonzalez Rocha o convite que me fez para apresentar seu livro Camille, um desafio feliz, relato de sua experiência e de sua luta, em favor da filha acometida da síndrome de West. Serei breve, porque a noite, hoje, não é de oradores; a noite, hoje, é de Camille, com o piscar das estrelas e a musicalidade das ondas do mar, aqui tão perto. Diria até que as estrelas, hoje, estão mais brilhantes e as ondas, mais sonoras, tudo em homenagem a Camille.
 
Começo chamando a atenção para quão original foi a fórmula de que lançou mão a inteligência de Marília Leite Gonzalez Rocha para comemorar os quinze anos de sua querida Camille. Outras mães, em idêntica situação, talvez preferissem se amoldar aos velhos e corriqueiros procedimentos que se adotam em tais datas, ou seja, apresentação da debutante, valsa dos quinze anos, baile festivo etc. Diz Marília: “Sabia que uma festa tradicional nada significaria para ela [Camille], seria uma festa mais para os pais e amigos”. Assim, com os pés firmes no chão e, por isso mesmo, realista em tudo aquilo que diz respeito à sua filha, Marília decidiu, de maneira inédita, festejar a primavera de Camille com o lançamento desta obra, que reflete a luta por ambas empreendidas, ao longo desse tempo, em prol da vida, não apenas vida material mas, sobretudo, vida espiritual. Digo luta por ambas empreendida porque nela  as duas interagem, se alegram, se abraçam, choram, se entendem, enfim, vivem.
 
Os que aqui vieram em busca do livro que, agora, Marília Rocha lança, não se decepcionarão, tenho certeza, com o que nele haverão de encontrar e de com ele aprender. Aprender, sim, porque este trabalho, escrito em linguagem simples e objetiva, nada mais é do que um ensinamento, calcado em quatro premissas e uma conclusão.
 
As premissas que eu aponto e que consegui retirar das páginas de Camille, Um Desafio Feliz, são: Amor, Doação, Sacrifício, Esperança. A conclusão direi depois.
 
Amor. É o primeiro ponto a ressaltar do relato empreendido por Marília Rocha. Trata-se de categoria impossível de ser definida, tantas são as dimensões por ela comportadas, tantos são os fatores que a circundam. Não obstante, e sem querer conceituá-lo, eu apontaria no Amor suas raízes divinas e a força que detém, ao ponto de possibilitar que os mais difíceis objetivos sejam alcançados por quem por ele é movido. A própria Marília revela: “...Camille ingressou na minha vida como um presente que sempre sonhei ganhar e cuidar com muito amor”. E em outra passagem: “Camille foi uma criança que esperei muitos anos para tê-la comigo e acreditei que o amor que estava guardado seria um elemento mais forte na minha missão de ajudá-la a progredir.”
 
Doação. É categoria que igualmente destaco nas linhas da autora. Está bem próxima da anterior. Eu diria que o ato de doar-se é ato de amor. Doar-se é privar-se, é destituir-se, é despojar-se de bens e interesses próprios, em favor de alguém. O ato de doar-se é um ato de entrega. Repito: é um ato de amor. A própria Marília tem plena consciência da identificação entre o ato de doar-se e o de amar. Por isso, proclama: “O amor de mãe é um ato de doação, puro e sem limites”. E mais adiante: “O amor verdadeiro é um ato de doar, não há egoísmo, é uma força interna do coração de cada ser”.
 
Sacrifício. Quem ama e se doa, sacrifica-se. Sem dúvida, não custa muito a quem se doa sacrificar-se. Sacrifício, portanto, é outro ponto ou premissa que eu saliento nas páginas de Camille, um feliz desafio. O sacrifício, muitas vezes, revela-se pela renúncia. Marília, ao longo desses anos tem renunciado a muita coisa em favor de Camille. Em outras palavras, tem-se sacrificado por amor a Camille. Este livro contém uma narração de doação e sacrifícios.
 
Esperança. Por último, faço sobressair no texto de Marília a Esperança, que vem de envolta com o amor, a doação, o sacrifício. A Esperança, que é uma das três virtudes teologais, aliada à Fé e à Caridade. Alguém já disse que “A esperança não é um sonho, mas uma maneira de traduzir os sonhos em realidade.” Creio que é assim que Marília encara a Esperança, Não como um sonho, mas como uma maneira de, com amor, doação e sacrifício, transmudar os sonhos em realidade, ensejando uma vida plena para a sua filha. Marília proclama: “Precisamos, sim, alimentar a esperança para alcançar e ultrapassar todos os desafios que possam existir à nossa frente e suplantar todos os obstáculos”.
 
Pelas páginas deste livro, o leitor tem conhecimento das vicissitudes por que hão passado mãe e filha nessa luta desigual; das terapias que têm sido utilizadas (fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, hidroterapia, equoterapia, musicoterapia); dos avanços e recuos que se têm operado no desenvolvimento de Camille; dos equipamentos utilizados nas diversas atividades de Camille, uns, ocupacionais; outros, lúdicos; alguns nascidos da inventiva da própria Marília; as manifestações de rejeição, mas, em contrapartida o apoio incondicional dos amigos e da família; a socialização de Camille, junto aos amigos, aos parentes, à escola; as vitórias alcançadas até aqui, enfim, tudo o que tem ocorrido com Camille e é importante para o seu desenvolvimento está contado nas páginas deste livro.
 
Apesar de todos os percalços, apesar de todas as dificuldades, Marília jamais desanimou. Ao contrário, tomou a si o propósito de lutar por Camille. Nunca deixou de querer a melhoria de sua saúde, de querer a melhoria de seu desenvolvimento, de querer a melhoria de sua personalidade.
 
Eu disse no início que havia pinçado deste livro quatro premissas e uma conclusão. As premissas já as citei: amor, doação, sacrifício e esperança. Tudo isso está presente, com assiduidade, no texto de Camille, um desafio feliz. Disso a autora se tem utilizado ao longo da vida de Camille. E é fácil deduzir a conclusão. Para Marília, com amor, doação, sacrifício e esperança, QUERER É PODER.
 
Meus parabéns a Marília, meus parabéns a Camille, meus parabéns a Germano, pai sempre presente, capaz de compreender e enfrentar o desafio, sempre a proteger a filha adorada, como nos revela Marília.
 
Muito obrigado.

 

 

UM DRAMA E MUITAS ESTÓRIAS, de Olivan Xavier. Prefácio.

 

 

UM PERSONAGEM BULIÇOSO E TELÚRICO
 
 
 
 
 
 
            Para quem conhece Olivan Xavier, espírito irrequieto e irreverente, não causa surpresa o seu aparecimento como autor deste livro, a que ele próprio classifica como “folhetim melodramático”.
            Um drama e muitas estórias é livro elaborado sem outra pretensão senão a de narrar a vida de um personagem buliçoso, desde os bancos escolares até o seu casamento. Ao longo da narrativa vão-se nos mostrando as variadas facetas de sua personalidade, assim como sucessivos episódios de sua vida tumultuada de estudante e de boêmio que ele sempre demonstra ser.
            Como colegial, engajado nas lutas estudantis dos grêmios de sua época, e como militante inserido nas campanhas universitárias, Navilo se mostra presa de contradições e de dúvidas que o assaltam, fazendo-o valer-se de Marx, de Sartre e de outros pensadores para a solução de suas inquietações. E, como se não bastassem tais problemas, o comportamento também contraditório de Lótus, a ativista de esquerda, o seu grande amor, a qual embora já tivesse ido para a cama com ele, negou-lhe um beijo ardente e, depois disso, desapareceu sem qualquer aviso, deixando-lhe apenas o eco de suas últimas palavras naquele encontro: “Quem sabe se um dia...?”
            Telúrico, Navilo jamais foge à tentação de contar casos – ou “causos” como preferem alguns – retirados dos folclores de sua pequena e interiorana “Lagoa” e que o narrador nos transmite em seqüência. Aí desfilam personagens populares ou fatos folclóricos protagonizados por figuras como Aziz do Tiro, Manjereba, Lautônio Fecha-Rua, Mandriola, Zezito do Pincel e outros. Mas os “causos” não se reportam apenas a Lagoa. Outros fatos, ocorridos no bar da preferência de Navilo, na Capital, popularmente conhecido como “Pau Bambo”, numa velada alusão aos seus provectos freqüentadores, são descritos para regalo do leitor que, sem dúvida haverá de divertir-se com os personagens que passam aos seus olhos: Giuseppe do Agito, o aposentado Zete de Naza, Bié Campineiro, Tonico Palé, Carlito Montenero e outros.
            Intercalam-se no livro algumas produções poéticas e jurídicas. E, aqui, o personagem, evidentemente, se transmuda no autor, pois Navilo nada mais é do que um anagrama de Olivan, embora isso não signifique ter o livro cunho autobiográfico.
            Boêmio e mulherengo, Navilo não se furta de relatar suas noitadas e seus amores. E desfilam à nossa frente louras esculturais, que a imaginação do autor vai criando sucessivamente: Eufrásia Tercila, Letícia Gudar, Wema Persona.

            Nada mais devo dizer, pois continuar a falar seria retardar ao leitor o prazer de mergulhar nas águas revoltas das aventuras de Navilo.

 

 

 

Álbum de Futebol + 90 minutos - A História do Futebol de Patos, de José Romildo de Sousa, João Pessoa, 2008, Sal e Terra.
 
 
P R E F Á C I O
 
 
 
 
José Romildo de Sousa é, hoje, nome expressivo na historiografia patoense, valor que ele vem angariando há vários anos, pela elaboração de trabalhos, estudos e pesquisas que o fazem merecedor desse reconhecimento, inclusive pela escolha de seu nome para ocupar uma cadeira no Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (IHGP) e para presidir a Fundação Ernani Sátyro, órgão da administração estadual, em cuja direção se tem sabido conduzir, dinamizando a entidade e, através dela, a vida cultural da cidade de Patos e da região.
 
 
Nos trabalhos de Romildo sobrelevam tanto o texto escrito quanto o texto fotográfico, numa clara evidência de que o autor de O Álbum do Futebol + 90 Minutos tem plena consciência da carga de historicidade de que é portadora a fotografia. Na saudação que lhe fiz, quando de sua posse no IHGP, tive oportunidade de ressaltar esse aspecto da obra de José Romildo, observando: Ninguém será capaz de negar que a fotografia se reveste de uma carga de historicidade inafastável. A fotografia é um registro de uma época, seja no que tange a fatos e acontecimentos, seja no que diz respeito à arquitetura de uma cidade, à sua expansão, a seus personagens etc. Desse modo, toda fotografia constitui um registro histórico. O tema tem sido objeto de dissertações, teses, palestras, teorias, etc. Não faltou a José Romildo de Sousa a perspicácia para apreender a importância da fotografia como documento histórico.
 
 
Ressalte-se, outrossim, e isto tem sido feito pelos que teorizam sobre a matéria, que a fotografia, apesar de seu dom de historicidade, é passível de interpretações e, também, carregada de emoções, seja a de quem a fez, seja a de quem foi seu objeto, seja, finalmente, a emoção de quem a vê.
 
 
É impossível a um patoense debruçar-se sobre o livro de José Romildo de Sousa sem impregnar-se de múltiplas emoções. Ser-lhe-á possível, também, fazer sua interpretação sobre cada uma das imagens aqui estampadas. Nisso reside a importância da fotografia: não somente registro histórico, mas igualmente cadinho de emoções, de interpretações, de sentimentos.
 
 
A segunda edição deste Álbum enfoca, além dos fatos contemplados na edição anterior, a invejável posição alcançada, nos últimos dois anos, pelo futebol patoense no cenário esportivo brasileiro, com a participação do NACIONAL ATLÉTICO CLUBE no Campeonato Brasileiro – Série C, versão 2007, e com a sua presença na Copa do Brasil, versão 2008, quando enfrentou importantes clubes nacionais, pelejando em diferentes e longínquos estados brasileiros, tais como, Pará (Tuna Luso), São Paulo (Bragantino), Rio Grande do Sul (Internacional), Goiás (Atlético, CRAC e Vila Nova), Espírito Santo (Linhares) além dos estados nordestinos, ao derredor da Paraíba, alcançando nessas disputas retumbantes vitórias e amargando, por vezes, acabrunhantes derrotas.
 
 
Além disso, o Álbum do Futebrol + 90 Minutos se mostra atualíssimo ao assinalar a caminhada vitoriosa do Nacional na I Copa Paraíba, rumo à Copa do Brasil de 2009.
 
 
É importante registrar nessa escalada do futebol patoense o papel, também relevante, do ESPORTE CLUBE DE PATOS que, embora não tendo alcançado o título de campeão ou vice-campeão, na disputa de 2007, peleou com bravura e com ardor, merecendo as homenagens de sua torcida.
 
 
Tudo isso torna maior a importância da segunda edição deste 90 Minutos, com que José Romildo de Sousa brinda os aficionados do futebol na terra das Espinharas, principalmente tendo em conta que os loiros de hoje não se teriam alcançado sem o esforço, a dedicação, o amor, dos que, ontem, deram tudo de si ao incipiente futebol patoense.
 
 
Vale, aqui, como faz Romildo em seu livro, menção a José Jorge de Sousa, Tiburtino Leite, Nô Gomes, Inocêncio Oliveira, José Cavalcanti, Monsenhor Vieira, Lauro Queiroz, Chicó, Romero Nóbrega, Amaury Carvalho, os quais, de diferentes modos, impulsionaram o futebol patoense. Registro também para os craques que, outrora, fizeram a alegria das torcidas locais: Antônio Araújo, Mário, Urai, Ruivo, Félix, Napoleão, Mário II, Sales e muitos outros. Finalmente, não se pode deixar de fazer referência às diversas equipes que, ao longo do tempo, arregimentaram torcedores e adeptos, aos pequenos campos em que lutaram: ESPINHARAS, BRASIL, PANATIS, BOTAFOGO, CICA, ESTRELA, ARSENAL, IPIRANGA, PENHAROL, BARIRI, e outros mais, cujas trajetórias confluíram nas duas forças atuais do nosso futebol: NACIONAL e ESPORTE.
 
 
Este filme de noventa minutos em que se constitui o livro de Romildo, sem dúvida, é de grande importância para o conhecimento do futebol de Patos e dele não pode prescindir quem se interessa pelas coisas que fazem vibrar a alma patoense. Através de cada uma das fotografias nele inseridas, muitos rememorarão momentos inesquecíveis do nosso passado futebolístico; outros lembrarão nomes e figuras que batalharam pelo nosso futebol; alguns reclamarão da falta desse ou daquele evento, dessa ou daquela figura; enfim, todos experimentarão emoções e sentimentos que  somente a perspicácia e a inteligência de José Romildo de Sousa seria capaz de provocar, por meio desta “crônica fotográfica”, plena de glória e encantamento que é O   Álbum do Futebol + 90 Minutos.
 
 
 
Entre Talentos do Cariri, apresentação do livro homônimo, de Emannoel Rocha Carvalho, quando de seu lançamento, João Pessoa, 2008.
 
 
 APRESENTAÇÃO
 
 
Este é um livro simples. Simples como o seu autor. Simples como o seu personagem principal. Não obstante, quando o Professor Emmanoel Rocha Carvalho e o empresário Assis Júnior deliberaram a feitura desta obra, jamais imaginaram que a decisão redundaria em um trabalho que, apesar de simples, é, ao mesmo tempo, magistral, não no sentido de completo e perfeito, mas naquela significação que vem de sua raiz latina – magister – significando o que pertence ou vem do mestre.
 
 
Entre talentos do Cariri contém nada mais nada menos que lições de vida, ministradas por uma das pessoas mais autorizadas a dá-las, que é Severino de Assis Júnior, talento de empresário ou, para usar uma expressão mais atual, mestre do empreendedorismo.
 
 
A vida empresarial de Assis Júnior se fez passo a passo, etapa por etapa, degrau por degrau, ao longo da qual, às suas qualidades natas de homem de negócios, soube juntar os predicados da tenacidade, da dedicação, do esforço, da honestidade, da honradez, da ética.
 
 
Na sua caminhada, não há vestígios de procedimentos que afrontem essas virtudes. O seu patrimônio não foi feito da noite para o dia, como é próprio, hoje, de alguns homens públicos que defraudam o erário e fazem do locupletamento seu objetivo maior. O seu patrimônio foi obra de anos e anos de canseira, suor e lágrimas. Em seu trajeto, jamais atropelou amigos ou colegas. Em sua caminhada nunca deu azo à concorrência desleal. Em sua vida jamais fez uso da detestável lei de Gerson. E o resultado disso é que chegando à maturidade pode dizer aos filhos e netos que combateu o bom combate e, hoje, pode gozar o descanso merecido, se é que descansa quem  com a dura lida sempre se entrança.
 
 
A grande jornada de Assis Júnior, como empresário, começou com um bar de pequenas proporções, situado na Rua Barão do Triunfo. Tempos depois adquiriu um estabelecimento comercial, localizado na mesma avenida, ao qual deu a denominação de Casa Júnior. A partir daí tudo foi progresso, não sem luta, não sem esforço, não sem canseiras. A Casa Júnior foi, por algum tempo, uma grande referência no ramo de miudezas e utilidades domésticas, na praça de João Pessoa. Tempos depois, Assis Júnior instalaria o Júnior Shopping Center, no Parque Solon de Lucena; também um Supermercado Júnior em Mangabeira e idêntico empreendimento em Bayeux.
 
 
Às suas qualidades de empreendedor, aliava Assis Júnior os dotes de líder empresarial, condição que o levou à Presidência da Associação Paraibana de Supermercados e à Presidência do Clube de Diretores Lojistas.
 
 
Eu abomino aquela sentença que diz: “Por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”. Tolice. Isso não existe. Há sempre uma grande mulher ao lado de um grande homem, isso sim. Não atrás, mas ao lado, ajudando-o, amparando-o, auxiliando-o, corrigindo-o, censurando-o, para que ele vença, para que ele não erre, para que ele se corrija.
 
 
E Assis Júnior teve a sorte de encontrar seu anjo tutelar, na pessoa de Josélia, até hoje ao  seu lado, ajudando-o, amparando-o, auxiliando-o, corrigindo-o, censurando-o. Ambos formam um casal feliz, malgrado algumas escaramuças, próprias dos casais felizes. Certa feita, Assis Júnior, de volta de viagem ao sul do país trouxe para Josélia uma mão de pilão, peça artesanal de fino lavor artístico. A esposa gostou muito do presente e guardou-o com carinho, não sei se já antevendo a serventia que um dia poderia ter.  Domingo, dia de verão, manhã de sol, o mar cambiando entre o azul e o verde, a brisa leve soprando, Assis Júnior encontra-se com um amigo e resolve tomar uma cervejinha, maneira de descansar da luta semanal. Libação e papo correm amenos para ambos, revolvendo fatos, lembrando amigos, evocando cenas, não lhes deixando notar que o tempo passava. Já ao fim de tarde, não satisfeito, Assis Júnior convida o amigo para um estirão até sua casa, onde a mulher, com certeza, lhes ofereceria uns acepipes, daqueles que só ela sabia preparar. E assim fizeram. Ao chegarem à casa de Assis Júnior, batem palmas, pois o dono havia esquecido a chave. Algum tempo depois surge Josélia, portando nada mais, nada menos, que a célebre mão de pilão, dirigindo-se, ameaçadoramente, aos dois. Se eles não correm tão depressa, cada um teria ganho um bom galo na cabeça.
 
 
Acertou em cheio Assis Júnior ao escolher como seu parceiro na elaboração deste livro o Professor Emmanoel Rocha Carvalho, cujos méritos eu já conheço desde quando fui seu professor, no Colégio Comercial Roberto Simonsen, da cidade de Patos, dirigido por Edmilson Lúcio de Sousa. Naquele tempo lecionei as disciplinas Economia Política, Direito Usual e Instituições de Direito Público e Privado, naquele tradicional estabelecimento de ensino das Espinharas. Funcionário do Banco do Brasil, Emmanoel, posteriormente, transferiu-se para esta Capital e aqui encontrou campo mais propício para pôr em melhor uso os seus dotes de inteligência e sua capacidade intelectual. Ingressou na Universidade Federal da Paraíba, demonstrando os seus dons de mestre. No Banco do Brasil como na UFPB ocupou elevadas funções e importantes comissões.
 
 
Devota-se, agora, ao exercício de historiador e biógrafo, tendo revelado nessa atividade inegável competência com o lançamento de seu primeiro livro, intitulado Nos caminhos do Vigário José Antônio, relato de uma vida e de uma época, em que sobressai a figura singular do Padre José Antônio Marques da Silva Guimarães, misto de sacerdote e político, não muito cumpridor de seus votos sacerdotais, notadamente o voto de castidade, preferindo a todos eles os votos eleitorais. Esquecendo aqueles e cuidando destes, o Vigário obteve o que queria: uma prole numerosa e quatro mandatos de Deputado Provincial, alcançando, inclusive, a Presidência da Assembléia Legislativa Provincial, de 1840 a 1841. Sua descendência ilustre inclui governadores, senadores, deputados federais, deputados estaduais, neste Estado e no Rio Grande do Norte, profissionais liberais das mais diversas áreas, professores universitários, entre os quais o autor a quem me estou referindo, Professor Emmanoel Rocha Carvalho.
 
 
Entre talentos do Cariri nada mais é do que a reafirmação consagradora de Emmanoel como biógrafo e historiador. Chamado a narrar a vida de um homem, o autor lança-se a tarefa mais ampla e narra, também, a vida de uma cidade e de uma região – Serra Branca, situada no cariri paraibano. Os primeiros habitantes, os primeiros colonizadores, as guerras da colonização, o surgimento de Serra Branca, os primeiros passos do povoado, sua emancipação, suas atividades econômicas, sua administração, tudo isto constitui a essência deste livro simples e magistral, como eu disse no início. Livro que não é só biografia, que não é só história, mas é, igualmente, economia regional, administração pública, sociologia, política, como é do gosto e feitio do autor, revelados em Nos caminhos do Vigário José Antônio.
 
 
Por fim, vale observar que, não satisfeito em biografar Assis Júnior, Emmanoel Rocha Carvalho inclui no livro excertos biográficos de várias figuras importantes do cariri paraibano, que se destacaram na política, no comércio, no magistério, na administração pública, nas profissões liberais, honrando, assim, o nome daquela região, castigada pela natureza mas redimida pela ação fecunda e honesta de seus filhos.
 
 
De parabéns, pois, está Assis Júnior, pela vida que levou, ensejando essa biografia tão rica em lições e sugestões. De parabéns está, sem dúvida, o autor, Professor Emmanoel Rocha Carvalho pelo trabalho que soube elaborar, enriquecendo a bibliografia paraibana de história e de biografia. Agradecidos estamos nós por esta noite maravilhosa que Assis Júnior e Emmanoel nos proporcionam.
 
 
Muito obrigado.
 
 
 
 Puezia, de Wandecy Medeiros, s/e, 2006, Patos. Prefácio
 
  
Poiesis, poesia, puyezia
 
 
 
           
 
            A poesia de Wandecy Medeiros, aliada a alguns textos em prosa que até aqui eu conhecia, já me fazia antever o aparecimento desta obra explosiva com que ele reafirma seus dons de poeta, notadamente de poeta insurgente, liberto de normas, inimigo de regras, livre de convencionalismos que possam tolher ou limitar seu estro inspirado e, sobretudo, espontâneo .
 
            Aliás, para sua exata compreensão, a obra de Wandecy não prescinde do conhecimento daquilo que ele próprio diz de sua poesia, no prefácio que escreveu para o livro A vida é vento.
 
            A minha poesia é simples como a minha vida – diz o poeta, acrescentando, em seguida, o que, para mim, é fundamental ao entendimento da sua produção literária: Não escrevo para eruditos. Escrevo para os atormentados das esquinas...
 
            A expressão “atormentados das esquinas”, além de ricamente expressiva e emblemática da poesia de Wandecy, curiosamente, me remete para o “A Esquina da Vida”, bar existente, antigamente, no cabaré de Patos, onde se reuniam os que, através da música, da bebida e do prazer, buscavam sufocar os seus tormentos.
 
            Talvez o próprio poeta seja um atormentado pelas mazelas do mundo que nos cerca, mas para cuja superação não se deixa ele iludir por aquilo em que se permitiam envolver os freqüentadores d´A Esquina da Vida. Ao contrário, os seus derivativos são, sem dúvida, a poesia, a filosofia, a religião. Como poeta e filósofo, Wandecy critica, questiona, duvida, sugere, indaga, contesta. Para ele a poesia é um instrumento de crítica, de questionamento, de manifestação de dúvidas, de contestação, de perquirições sobre o que ele vê e julga merecedor de suas reflexões.
 
            Se para João Guimarães Rosa, viver é perigoso, para Wandecy, viver é coisa de moleque.
 
            Se eu soubesse que iria morrer amanhã, eu me suicidaria hoje – diz Wandecy. Faria isso – explica – só para quebrar o enigma e contrariar o desígnio. Talvez, também, porque, em outra passagem, ele reflete: Morrer, nos dias de hoje, é lucro.
 
            Confessa Wandecy: Tudo que em mim cheira a anjo é sufocado pelo átomo de hipopótamo que certamente carrego. Confissão idêntica ele põe nestas palavras: É provável que na nossa melhor ação exista mesmo uma besta querendo aflorar. Assim como nestas outras: Eu sou uma alma sensível num corpo rinocerôntico.
 
            Se você nunca deixar para amanhã o que pode fazer hoje - assevera Wandecy - você nunca terá o que fazer amanhã. No mesmo tom rizível, a assertiva: Todo homem que não deseja a mulher do próximo é porque deseja, sem sombra de dúvida, o próprio próximo. E outra mais: Se somos feitos de barro, somos irmãos da panela.
           
             Para o poeta, se o ócio fosse produtivo para todos, os padres seriam os melhores cérebros de uma cidade, no entanto, qualquer observador mediano sabe que eles são, na verdade, os melhores estômagos.
 
            Quero Deus, não teologia – grita Wandecy.
 
            É dele esta verdade evidente: Em mula sem cabeça eu ainda acredito: de vez em quando topo com uma por aí.
 
            Como se vê, para exercer o seu papel, ele se revela, nessas e em outras ocasiões, contestador, irônico, intimista, crente, niilista, anticlerical, mas, relevantemente, alguém que pensa por si, o que não é muito comum nos dias de hoje. Com isso, Wandecy luta pela dignidade do poeta, batalhando contra o que é efêmero e fugaz, vendo o mundo como ilusão e aparência, porém, convicto da necessidade que há de cada um lutar por virá-lo de cabeça para baixo ou, como preferem outros, de ponta-cabeça.
 
            Diante de tudo isso não é de admirar ou, talvez, seja até tardio, o aparecimento deste PUEZIA, com que Wandecy Medeiros reafirma, como eu já disse, sua vocação de poeta insurgente, liberto de normas, inimigo de regras e de preconceitos.
 
            Mais do que a forma, mais do que o vocabulário, mais do que as definições que usa ou os conceitos que emite, chama-me a atenção neste livro a escolha que Wandecy faz do urubu, como símbolo, como âncora, como mito, ao longo de toda a sua produção poética aqui estampada.
 
            É provável que, preocupado com o destino deste mundo, dia-a-dia ameaçado pelas violações ambientais, mundo que se vê em lenta agonia, manifestada pelos tsunamis, pelo desmantelamento das geleiras, pelas abruptas modificações climáticas, pela proliferação dos ciclones, é provável, repito, que a eleição do urubu como âncora de sua poesia tenha sido ditada como para simbolizar as preocupações ecológicas do poeta, visto como àquela ave, ao mesmo tempo, majestosa e abjeta, portentosa e fétida, benéfica e rapace, é justamente reconhecida uma ação benfazeja em prol do meio ambiente, livrando-o de resíduos que, se não eliminados pelos abutres, espalhariam doenças e favoreceriam epidemias, pondo em perigo toda a humanidade.
 
            Além disso, o urubu – o corvo brasileiro - está presente na literatura universal. Augusto dos Anjos, o nosso poeta maior, chamou-o de “ave dolorosa” e deixou-o plantado em seu verso: Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Edgar Allan Poe lhe dedicou longo e expressivo poema, mundialmente conhecido, merecedor de celebradas traduções, inclusive de Fernando Pessoa e Beaudelaire. Na literatura folclórica ele está abundantemente presente, quer em contos populares, quer em lendas indígenas, em provérbios e em versos de cordel.
 
            Na poesia de Wandecy, o urubu ganha proeminência a partir da própria forma gráfica do título da obra – PUEZIA – em que a correção vernacular é sacrificada, valendo isso, por um lado, para aliar a grafia à inspiração de seus versos, e, por outro aspecto, para ressaltar a vogal U, de urubu.
 
            No contexto de seu trabalho Wandecy apresenta o urubu sob diversas configurações: urubu obscuro, urubu gaseado, urubu vexame, urubu idealista, urubu sexual, urubu repórter, urubu contraditório, urubu vaidoso, urubu paralelo, urubu satírico, urubu eloqüente, urubu hostil, urubu favelado, urubu diplomado, urubu fálico, urubu poético, urubu machista, urubu lúdico, urubu urubu, urubu distraído, urubu bruto, urubu surrealista, urubu artista, urubu extraterrestre, urubu meloso e outro tanto mais de referências que seria fastidioso citar, além de tirar do leitor a graça de conhecê-los por si. Não pense ninguém, porém, que em cada uma das estrofes se encontrarão menções à taxionomia dos abutres, à sua anatomia, à sua fisiologia ou a qualquer particularidade orgânica daquela ave.
 
            O urubu de Wandecy, conforme retratado, poeticamente, é o homem com sua coorte de misérias, é a sociedade com seus vícios, é a humanidade com os seus tormentos. Que ninguém se esqueça das palavras do poeta: Escrevo para os atormentados das esquinas...
 
            Urubu obscuro:
 
É grande o irracional no meio do natural
A causa e o efeito numa explosão descomunal
É uma fetidez tão fétida e alimenta o escaravelho
Um trovão que trovoando pára o coração do velho
 
            Urubu alcoólatra:
 
Uma tarde de sábado numa mesa
Não compensa um domingo de tristeza
Passou segunda, terça, quarta, quinta, é sexta-feira
E dentro dele se esperneia a mesma besta
 
            Urubu gaseado:
 
A mata, antes virgem, converteu-se em libertina
Prostituída e explorada pelas nações cafetinas
Seiscentas e sessenta e seis mil opressões
Daniel sem Jeová numa cova de leões
Rebanho conduzido pelos sábios dos jornais
Batinas e paletós – urubu movido a gás.
 
Urubu otimista:
 
A consciência é a natureza a si mesma conhecendo
Buscando sempre acertar e mil erros cometendo
Como o tempo nunca pára tenho que ser otimista,
Mesmo que a humanidade seja riscada da lista,
Ainda resta a esperança dos robôs e dos insetos
Que dispõem de muito tempo para tornar o mundo certo.
 
            Urubu diplomado:
 
Não é um mamífero qualquer, é um cavalo diplomado
 
            Urubu irônico:
 
Eu quero deixar claro para toda a nação
Que eu sou brasileiro, mas não sou ladrão
           
            Urubu satírico:
 
Criticam o meu harém: “Isso é uma perdição”,
Me dão uma cruz pesada para a minha salvação,
Mas se eu não pecar bastante e nunca fizer o mal
O que pedirei a Deus no julgamento final?
 
 
 
            A poiesis dos gregos, que se fez poesis e poesia com os latinos, é, agora, com Wandecy, PUEZIA.
 
Wandecy Medeiros, pela força de sua poesia, intrigante e instigante, rebelde e contestante, por vezes hilariante, para alguns chocante e crua, pode ser considerado, assim penso, um poeta maldito, da boa linhagem que a literatura universal conhece, à qual pertencem, entre outros, Beaudelaire, Verlaine, Rimbaud, Mallarmé, Sade, Edgar Allan Poe e, entre nós, Augusto dos Anjos. Seus versos, inegavelmente, se nutrem da mesma seiva que alimenta a poesia desses iluminados autores mundiais.
 
  
Ernani Sátyro Convivência e Participação, de Evaldo Gonçalves de Queiroz, 2006, João Pessoa. Prefácio.
 
 
P R E F Á C I O
 
 
 
 
 
            O tempo, esse mestre da perspectiva, que nos dá pelo distanciamento a oportunidade de novos prismas para uma melhor visualização de homens, fatos e coisas, paulatinamente nos vai ajudando a enxergar e a reconhecer a perfeita imagem e a real dimensão do político, do administrador, do jurista, do homem de letras, do cidadão, do ser humano autêntico que foi Ernani Ayres Sátyro e Sousa, o Amigo Velho. Isso não só do ponto de vista individual mas também e principalmente em meio à ambiência histórica em que ele atuou, ao lado de grandes líderes nacionais e estaduais ou sob a inspiração de outros que o antecederam nas atividades políticas, administrativas, jurídicas, literárias.
 
 
            Para isso contribuem, sem dúvida, os depoimentos de seus contemporâneos, espalhados em livros, jornais e revistas, sob a forma de memórias, entrevistas, relatos, notas, discursos, apartes etc. Até mesmo certas historietas que circulam e se propalam em torno de Ernani Sátyro, algumas verídicas, outras fantasiosas, contribuem para a elaboração do exato perfil do Amigo Velho, porque as primeiras evidenciam sua autenticidade pessoal e as outras, folclóricas, mostram a força de sua personalidade, capaz de fazer surgir em torno de si fatos e atos que não foram por ele vividos ou praticados, mas que se adaptariam à sua vigorosa índole.
 
 
            A propósito disso, li, há dias, livro de memórias, de autoria de celebrado jornalista, no qual estão inseridas algumas verdades e fantasias sobre o inesquecível homem público e no qual se nota, também, a marca do ressentimento do autor para com Ernani Sátyro. Tal mágoa, até hoje não resolvida, decorreu do seguinte fato: quando repórter de A UNIÃO, o velho jornal a que Ernani Sátyro deu novas dimensões, dotando-o de instalações físicas amplas e de máquinas e equipamentos modernos, ainda hoje condizentes com a sua importante posição de o mais antigo órgão de imprensa do nosso Estado, em circulação, o jornalista, autor do livro a que me refiro, foi destacado pelo Redator-chefe, Secretário de Redação, Editor, ou equivalente, para entrevistar o folclorista e emérito escritor potiguar Luís da Câmara Cascudo que, naquele exato momento, se achava com o Governador Ernani Sátyro, no Palácio da Redenção. O jovem repórter muniu-se de um gravador a pilhas e dirigiu-se àquele local. Em lá chegando, ao ligar o aparelho teve um estremecimento por verificar que o gravador não funcionava. Mexe pra lá, mexe pra cá, o entrevistador, para grande espanto seu, constatou que o aparelho achava-se desprovido das pilhas, sem as quais jamais funcionaria. Bastante aflito, pediu desculpas ao entrevistado e ao Governador e disse que teria de voltar ao jornal para providenciar os acessórios que faltaram. Ao sair, ouviu do Governador, manifestada naquele seu vozeirão, a seguinte sugestão, feita, mais ou menos, nesses termos:
 
 
            - Vá, amigo velho, providencie as pilhas e providencie, também, outro repórter.
 
 
            Aquelas palavras, ditas no tom tonitroante da voz de Ernani Sátyro calaram no espírito do jovem jornalista como uma grande humilhação, como ele próprio confessa. Mas, convenhamos, um repórter que vai entrevistar uma personalidade como Câmara Cascudo, na presença de seu ilustre anfitrião, Governador do Estado, e não cuida para que o equipamento de gravação esteja em perfeitas condições de uso, esse repórter merece mesmo é uma admoestação como a que Ernani Sátyro aplicou, sem injúria e sem ofensa.
 
 
            Era assim o Amigo Velho, em torno de quem este livro de Evaldo Gonçalves revoluteia, narrando episódios de que ambos participaram, antes, durante e depois da ascensão do saudoso patoense à curul governamental da Paraíba, em 1971.
 
 
            São memórias de Evaldo e também memórias de Ernani e de seu tempo, mediante a revelação de fatos, alguns por demais conhecidos, outros, porém, inéditos para a maioria dos paraibanos, todos, porém, servindo para delinear com nitidez o perfil daquele homem público que durante toda a sua vida só fez ilustrar a atividade política, não só em termos regionais mas igualmente em dimensões nacionais. Serve este livro para patentear a todos a firmeza de propósitos e de atitudes com que Ernani Sátyro assumiu o governo da Paraíba, numa época difícil em que muitos eram os que se consideravam os donos do poder armado que se instalara no País, com os quais o novo governante estadual mantinha afinidades, é verdade, mas aos quais jamais se curvaria quando entendesse necessária a reafirmação do brio e da hombridade da alma paraibana.
 
 
            A própria escolha de Evaldo Gonçalves para o corpo de auxiliares do governador eleito sofreu, como ele próprio revela, restrições dos militares e seu nome não permaneceria entre os selecionados não fosse a autoridade moral e cívica do governante recém eleito, que soube se impor perante o mais alto escalão do Exército no Nordeste, de onde provinham as restrições à pessoa do autor deste livro.
 
 
            Também é ressaltada por Evaldo a veemência com que Ernani Sátyro defendeu perante o Presidente Ernesto Geisel a indicação de Ivan Bichara Sobreira para seu sucessor no governo da Paraíba. A lembrança dessa intervenção de Ernani Sátyro, serve, igualmente, para esclarecer, de uma vez por todas, a participação do ex-Governador no episódio de sua sucessão, participação que não poucos tentam minimizar, mas que é, agora, revelada em toda sua inteireza e em todas as suas vivas cores pela lembrança do seu Chefe da Casa Civil.
 
 
            Um outro comportamento de Ernani Sátyro, nessa mesma linha, não referido por Evaldo, porque bem anterior ao estreito relacionamento de ambos, mas que foi, à época, destaque em jornais do sul do país e é referido em vários livros de memórias, escritos por protagonistas da política nacional, foi a manifestação de desagrado por ele feita ao Presidente Castelo Branco, em face do ato revolucionário que extinguiu os partidos políticos, então existentes, de um dos quais – a União Democrática Nacional (UDN) – Ernani Sátyro era presidente nacional, eleito em memorável convenção, realizada em 1965, em Niterói.
 
 
            Neste livro, Evaldo não se limita ao registro da atuação de Ernani Sátyro na política e na administração. Na medida em que vai narrando os episódios de que os dois foram personagens, o autor realça o intelectual, o escritor, o romancista, o poeta, o jurista, o ser humano autêntico, o causeur admirável que foi o Amigo Velho e com essa análise traça um retrato de Ernani Sátyro em que surge uma figura de inegável projeção em todos aqueles setores a que se dedicou.
 
 
            É claro que, consideradas aquelas atividades, isoladamente, em cada uma delas algumas personalidades de nosso Estado estão acima de Ernani Sátyro. No entanto, nenhum outro coestaduano se apresenta com o conjunto de talentos e méritos com que o memorável patoense se distinguiu ao longo de sua vida.
 
 
Na política, foi deputado federal, além de Secretário Geral e Presidente nacional de um dos maiores partidos da história política do Brasil (UDN), sendo difícil encontrar representante com maior atuação parlamentar, tanto no Plenário como nas Comissões, líder da oposição e, em outra fase política, líder do Governo, Presidente da Comissão de Constituição e Justiça, além de responsável pela relatoria de importantes matérias, dentre as quais ressalta a do projeto de lei que concedeu anistia aos acusados de crimes políticos, praticados após março de 1964, projetando-se, ainda, como um dos mais vibrantes e assíduos oradores parlamentares de toda a história do Congresso Nacional, conforme está registrado nos Anais do nosso parlamento.
 
 
Na administração pública, destacou-se como Governador da Paraíba, realizando um acervo de obras importantes que nenhum outro administrador paraibano logrou deixar: Centro Administrativo, Edifício da Assembléia Legislativa, Conclusão do Hotel Tambaú, Ceasa de João Pessoa, Ceasa de Campina Grande, Estádio de Futebol de João Pessoa, Estádio de Futebol de Campina Grande, Sede e equipamentos da gráfica e jornal A União, Quartel do Corpo de Bombeiros em João Pessoa, II Adutora de Campina Grande, Sede do DETRAN, em Campina Grande, Rodovia Patos-Conceição (Trecho Patos-Itaporanga), Fórum de Patos, Barragem do Farinha, além de muitas outras, notadamente escolas de ensino fundamental e de ensino médio.
 
 
No Direito, atuou Ernani Sátyro, inicialmente, como advogado, após colar grau na Faculdade de Direito do Recife, em 1933. Porém, no cumprimento de sucessivos mandatos de Deputado Federal, seria forçado a abandonar a advocacia, salvo as ocasiões em que, perante a justiça eleitoral, inclusive de grau superior, defendeu os interesses da UDN. Tempos depois, exerceu de maneira consciente e criteriosa a judicatura militar, integrando o Superior Tribunal Militar. Seu maior trabalho, porém, na área jurídica, seria a relatoria do projeto de lei que instituía o novo Código Civil Brasileiro, para o que elaborou substancioso parecer, aprovado pela Câmara dos Deputados e remetido, posteriormente, ao Senado da República.
 
 
Na literatura, não menor foi sua projeção, autor de três romances, um dos quais ainda inédito. A respeito do primeiro deles, - O QUADRO NEGRO – pronunciaram-se, favoravelmente, eminentes críticos e literatos, a exemplo de Wilson Martins, Olívio Montenegro, Adonias Filho, Joel Pontes, José Lins do Rego, Temístocles Linhares e outros. Publicou, também, livro de poemas, intitulado Canto do Retardatário e escreveu contos, artigos, crônicas e ensaios, divulgados na imprensa local e do sul do país. Foi membro da Academia Paraibana de Letras e da Academia Brasiliense de Letras.
 
 
Justo é ressaltar sua posição entre os grandes oradores paraibanos, como bem o colocou o escritor, ensaísta e crítico Antônio Carlos Vilaça, posição obtida, não só na tribuna parlamentar como também pelos discursos que pronunciou em importantes acontecimentos, tais como, a entrega dos restos mortais de Epitácio Pessoa à Marinha do Brasil, quando de seu traslado para João Pessoa; a sua posse no Superior Tribunal Militar; também a sua posse como Governador da Paraíba; o sepultamento de seu amigo e colega Alcides Carneiro; a homenagem dos intelectuais brasileiros ao embaixador e escritor Gilberto Amado; a comemoração de seus cinqüenta anos de vida pública, promovida pela Assembléia Legislativa da Paraíba e outros, além das inaugurações e eventos diversos durante o seu governo à frente da Paraíba e, ainda, os comícios nas inúmeras campanhas eleitorais em que pelejou, sem falar na tribuna do júri que por muitos anos freqüentou.
 
Por tudo isso, tem carradas de razão Evaldo Gonçalves quando coloca Ernani Sátyro ao lado de Epitácio Pessoa e José Américo de Almeida, como os três paraibanos mais proeminentes ao longo do Século XX. Imorredouros na lembrança dos seus conterrâneos, eles, com o conjunto de suas virtudes e de seus defeitos, tiveram uma aspiração comum, sempre alcançada, jamais vilipendiada: honrar e ilustrar a vida pública brasileira.

 

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